Cicatrizes, inchaços e hematomas: Entenda o que acontece com Selena Gomez

Postagem por: Rebeca Gois
16.05.2018
Categorias: Artigos; Coluna SGBR; Curiosidades; Destaque; Francia Raisa; Notícias

Já fazem alguns anos que os problemas de saúde de Selena Gomez se tornam assuntos de interesse geral. Sua luta contra o Lúpus, uma doença autoimune, é acompanhada por seus fãs há mais de cinco anos. Durante este tempo, a cantora se viu obrigada a cancelar shows e toda sua agenda em decorrência de problemas com a doença. Até que em 2017, a notícia de que a atriz foi submetida a um transplante renal às pressas tomou conta da internet, se tornando um dos assuntos mais comentados de 2017.

UMA LINHA DO TEMPO

Veja, em ordem cronológica, as vezes em que o Lúpus afetou a carreira de Selena Gomez:

DEZEMBRO DE 2013

Selena Gomez interrompeu sua primeira turnê solo, a Stars Dance tour, alegando necessidade de tempo para lidar com problemas pessoais e para ter um tempo para sua família.

À época, além de estar trabalhando sem interrupções durante seis anos, Selena também enfrentava mais um término em sua relação com o cantor Justin Bieber.

A cantora, que sempre foi muito ativa e fiel aos seus compromissos de carreira, vinha de uma série de performances televisivas do hit Come & Get It, e fazia shows pela América do Norte e Europa desde o mês de agosto.

OUTUBRO DE 2015

Após o lançamento de seu segundo álbum de estúdio (e primeiro com sua nova gravadora, a Interscope), “Revival“, Selena Gomez revelou em entrevista à Billboard que o verdadeiro motivo da interrupção dos shows em 2013 havia sido a descoberta de uma doença: o Lúpus.

AGOSTO DE 2016

Mais um cancelamento de tour. Selena foi internada devido aos problemas com a doença, sendo forçada a finalizar sua Revival Tour com ainda mais de 20 shows restantes.

A cantora ficou internada durante três meses, cancelando toda sua agenda até novembro do mesmo ano, quando compareceu ao American Music Awards para receber o prêmio de Artista Feminina Favorita.

SETEMBRO DE 2017

Após algum tempo de postagens frias (nada de cunho pessoal), no mês de setembro, Selena revelou, em uma publicação que havia se submetido à uma cirurgia de transplante de rim em caráter de urgência, pois o quadro de sua doença tinha se agravado, afetando seus rins.

A notícia gerou grande comoção entre fãs e famosos, que expressaram seus desejos de melhoras à cantora:

LADY GAGA

CAMILA CABELLO

COLTON HAYNES

Mas o que é o Lúpus?

Para entender melhor sobre a doença que afeta Selena Gomez e mais de 5 milhões de pessoas ao redor do mundo, o Selena Gomez Brasil conversou com a doutora Jussara Kochen, Meste e Doutora em Reumatologia pela FMUSP há mais de 18 anos.

Selena Gomez Brasil: Olá, doutora. Tudo bem? Tendo em vista todos estes fatos sobre a condição clínica da Selena, nós, como fãs e fonte de informações sobre a cantora e atriz, nos sentimos na obrigação de tentar esclarecer, ou pelo menos dar uma luz a tantos jovens que acompanham nosso trabalho e também o da Selena, sobre este assunto.
Muitas dúvidas pairam, ainda sobre nossas cabeças quando o assunto é Lúpus, pois se trata de uma doença complicada, né.
Então, para começar “do começo”, a senhora poderia nos explicar o que é uma doença autoimune e como ela afeta o corpo da pessoa?
Doutora Jussara Kochen: Olá, SGBR. A doença autoimune nada mais é do que a alteração do sistema imunológico do indivíduo, o qual é responsável pelas defesas do organismo contra a invasão de elementos nocivos como bactérias, parasitas, vírus. Este sistema também é responsável pelo controle de células que tenham potencial de transformação maligna. Nas doenças autoimunes os indivíduos apresentam um desequilíbrio deste sistema de tal modo que as células responsáveis por sua defesa, os anticorpos, passam a agredir seus próprios tecidos ocasionando uma forte inflamação podendo levar à destruição de um tecido ou algum órgão do corpo humano.

SGBR: E quais os primeiros sinais que a pessoa pode apresentar no início da manifestação do Lúpus?

JK: O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) apresenta uma ampla variedade de manifestações clínicas e laboratoriais e nem sempre se iniciam da mesma maneira. De um modo geral as pessoas podem abrir o quadro clínico com dores e inchaço nas juntas do corpo, febre, emagrecimento, queda de cabelo, feridas na boca ou no nariz, vermelhidão no rosto e no V do decote principalmente se o paciente se expõe ao sol. Alterações laboratoriais podem iniciar com anemia, baixa contagem de leucócitos (glóbulos brancos) e plaquetas, (células envolvidas na coagulação do sangue), alterações ao exame de urina (nefrite) e outras inflamações que refletem o descontrole do sistema imune acima referido.

Pausa rápida para informação técnica (a entrevista continua logo depois):

O Lúpus Eritematoso Sistêmico é diagnosticado de acordo com critérios clínicos e imunológicos, sendo que o paciente precisa se submeter a uma série de consultas e exames até o diagnóstico completo.

Os Critérios clínicos: 1. Lúpus cutâneo agudo 2. Lúpus cutâneo crônico 3. Úlceras orais 4. Alopécia não cicatrizante 5. Sinovite 6. Serosite 7. Lesão renal 8. Sinais e sintomas neurológicos 9. Anemia hemolítica 10. Leucopenia ou Linfopenia11. Trombocitopenia

Os Critérios imunológicos: 1. Valores de anticorpos anti-nuclear (ANAs) acima dos limites de referência laboratoriais 2. Valor de anticorpos anti-DNA de cadeia dupla (anti-dsDNA) acima dos limites de referência laboratoriais 3. Anticorpos anti-Sm positivo 4. Anticorpo anti-fosfolípidos positivo 5. Fatores do complemento diminuídos 6. Teste de Coombs direto.

Para a classificação do LES deverão estar presentes pelo menos 4 critérios clínicos e imunológicos (pelo menos 1 critério tem de ser clínico e 1 imunológico) ou a nefrite lúpica deverá ser confirmada por biópsia na presença de ANAs ou anti-dsDNA.

Atenção: Se você suspeita que é portador da doença, converse com o seu médico.

SGBR: Outra questão que gostaríamos de entender é: Lúpus tem característica genética?
JK: Sim existem evidências científicas que mostram o envolvimento genético no seu aparecimento. Familiares de pacientes com Lupus podem apresentar algumas alterações imunológicas aos exames laboratoriais embora não necessariamente desenvolvam a doença. Em alguns casos, porém o lúpus ou outras doenças autoimunes manifestam-se em uma mesma família. Também é reconhecido um potencial de gravidade maior em indivíduos negros.

SGBR: Sobre os medicamentos/tratamentos que combatem o Lúpus, apenas eles são suficientes para controlar a doença?
JK: Não. Embora os medicamentos utilizados no controle da doença sejam de fundamental importância, existe a necessidade indispensável pelo paciente em adquirir estilos e hábitos de vida mais saudáveis tais como: Evitar bebidas alcoólicas, não fumar, praticar atividade física e ter uma alimentação saudável.

SGBR: A pessoa portadora de Lúpus precisará se submeter à um tratamento para sempre?
JK: Sim. Na grande maioria dos casos será necessário um controle permanente da doença com medicamentos que mantém o sistema imune “adormecido”. O Lupus é uma enfermidade que possui vários graus de comprometimento e gravidade. Desde casos leves que necessitam de medicamentos menos agressivos até casos mais graves que exige uma imunossupressão contínua.

SGBR: Falhas no cabelo, ganho e perda de peso constantes e hematomas são efeitos colaterais da doença ou dos medicamentos?
JK: A alopécia (queda de cabelo) e o hematoma podem fazer parte do quadro clínico. Já o ganho de peso, e, novamente, o hematoma podem ser consequências do esquema terapêutico utilizado para o controle da doença.

SGBR: Uma pessoa com a doença em período de remissão, ou seja, em um período de inatividade da doença, e sem o uso de medicamentos corticoides (anti-inflamatórios fortes) poderia tomar a vacinas como a da febre amarela por exemplo?
JK: NÃO. Nenhum paciente com doença auto-imune fazendo uso ou não de medicamentos imunossupressores pode tomar a vacina para a febre amarela uma vez que a mesma é constituída por vírus vivos atenuados. Neste caso os pacientes podem desenvolver uma forma grave da febre amarela. As vacinas contra H1N1 e pneumonia DEVEM fazer uso anual.

SGBR: O que acontece para o Lúpus causar problemas emocionais no paciente, como depressão, estresse e ataques de pânico?
JK: Estes sintomas têm de ser analisados de forma individualizada. Existe o impacto emocional associado à própria doença e seus tratamentos, como o ganho de peso, o aparecimento de acnes e estrias, assim como a própria rotina do tratamento com realização de exames e idas constantes ao especialista . Existem também quadros mais graves, porém mais raros de manifestação da doença em Sistema Nervoso Central que ocasionam alterações de comportamento, transtornos de humor e depressão.

SGBR: Doutora, a Selena é uma mulher jovem e que gosta de curtir a vida, como qualquer outra pessoa de sua idade. A senhora diria que beber e fumar fazem mal durante o tratamento do lúpus e deve ser evitado, ou é algo “normal”?b

JK: Sim. Faz muito mal. Tanto o fumo quanto o álcool. Primeiro porque a nicotina produz um efeito muito lesivo à circulação e se o indivíduo possui algum órgão do corpo inflamado o cigarro irá amplificar e perpetuar a lesão. Da mesma forma o álcool principalmente se o paciente está em uso de algum medicamento imunossupressor com potencial para produzir toxicidade ao fígado.

SGBR: No ano de 2017, Selena Gomez foi submetida à um transplante de rim de urgência. O que leva a doença à um patamar tão grave? A falha deste e de outros órgãos é comum?
JK: A gravidade da doença renal associada ao Lupus está particularmente relacionada ao patrimônio imuno-genético da paciente, e à sua capacidade de resposta terapêutica aos medicamentos imunossupressores que controlam a nefrite lúpica. Como anteriormente referido o lupus possui graduações na manifestação e atividade inflamatória auto-imune. Costumamos dizer de maneira informal que existe o “lúpus, o lupinho e o lupão” conforme a intensidade da doença renal, do sistema nervoso central, do coração, do pulmão e suas membranas que os recobrem como a pleura e o pericárdio.

SGBR: Neste caso, o transplante é uma solução ou apenas um paliativo (atenuante temporário)?
JK: O transplante Renal é utilizado para os pacientes com grave doença renal e que tiveram várias recaídas e resposta pouco efetiva ao tratamento por medicamentos. Muitos destes pacientes se encaminham para a diálise, porém o recurso final para salvar a função do rim é o transplante. O sucesso do procedimento mais uma vez irá depender de fatores próprios da imunidade do indivíduo e se possui outras doenças associadas como diabetes, hipertensão arterial ou elevação nas taxas de colesterol.

SGBR: Qual é a vida útil de um rim transplantado? É possível realizar uma segunda cirurgia quando este “prazo” terminar?
JK: Mais uma vez o sucesso do rim transplantado vai depender da intensidade da atividade inflamatória do lúpus e sua resposta aos medicamentos que controlam a rejeição ao transplante e à própria doença. Os estudos relatam em torno de 8% na falha do transplante renal pela doença lúpica.

Existem alguns fatores de risco para a perda do transplante renal tais como etnia afro descendentes, gênero feminino, idades menores que 33 anos. Nestes casos a nefrite lúpica recorrente e a rejeição renal crônica foram os principais responsáveis pela perda do transplante. Alguns estudos mostram ainda que o sucesso na sobrevida do transplante estaria associado a um curto período de diálise pré-transplante. Um segundo transplante é muito raro e mais arriscado.

SGBR: Em algum momento da vida, mesmo após o período de adaptação, o corpo da pessoa pode começar a rejeitar o órgão doado?
JK: Potencialmente, sim, como referido anteriormente e dependendo das condições clínicas do paciente.

SGBR: Qual fator dificulta a procura por respostas eficientes e, talvez, menos agressivas ao corpo humano contra o Lúpus? A cura é uma possibilidade, mesmo que distante?
JK: O lúpus é uma doença com um mecanismo muito complexo e com várias vias de desencadeamento da inflamação auto-imune. Os medicamentos costumam agir em algumas vias mais importantes, mas não contemplam toda a abrangência do fenômeno inflamatório. Por isto muitas vezes são necessários vários medicamentos associados para o controle da doença. Os estudos científicos encaminham-se para um futuro onde se possa realizar um mapeamento imuno-genético individualizado e desta forma possa otimizar os tratamentos uma vez que estes nem sempre funcionam da mesma maneira para todos os pacientes com lúpus.

SGBR: Tenho só mais uma pergunta, na verdade, é uma pergunta que foi feita várias vezes pelos fãs, mas eu não achei espaço para ela na entrevista, mas gostaria de responder ainda assim. A Selena é uma moça jovem que tem toda a vida pela frente ainda, muitas coisas para descobrir e vivenciar. Nós gostaríamos de saber se a senhora acha/sabe se a gravidez, no caso dela, é uma possibilidade, se apresentaria mais riscos para ela e para o bebê?
JK: É realmente uma questão muito relevante considerando que o Lúpus é muito frequente em mulheres jovens e em idade fértil, e esta é uma preocupação muito presente nestas pacientes. Não existe contraindicação à gestação. No entanto orientamos para que esta ocorra em um momento em que a doença esteja muito bem controlada, isto é, paciente sem sintomas e com os exames laboratoriais mostrando pouca ou nenhuma atividade inflamatória. É uma decisão que tem que ser tomada em conjunto com o médico e estar ciente de possíveis riscos, uma vez que o Lúpus pode se ativar durante a gestação e no pós-parto. Muitas pacientes tornam-se mães na vigência da doença mas têm sempre que ser acompanhadas em conjunto com o reumatologista e com obstetra que, de preferência, atenda gravidez de risco.

SGBR: Obrigada, doutora! Com certeza, ser tão jovem e conviver com uma doença tão agressiva e limitadora não é tarefa fácil e esperamos que, tanto a Selena, quanto outros portadores da doença, tenham força e sabedoria para suportar todas as tempestades que vierem em suas vidas.

Esperamos que este especial tenha esclarecido as principais dúvidas com relação ao quadro clínico da Selena e sobre os cuidados que uma pessoa portadora da doença precisa ter.

A Dra. Jussara de Almeida Lima Kochen é Mestre e Doutora em Reumatologia pela FMUSP e especialista em Reumatologia pela Sociedade Brasileira de Reumatologia. Conheça mais sobre seu trabalho em: www.drajussarakochen.com!

Para conferir outras matérias publicadas na Coluna SGBR, acesse.

Texto, informações e entrevista por: Rebeca Gois e Equipe Selena Gomez Brasil.

Nome: Selena Gomez Brasil (SGBR)
Desde: 21 de Setembro de 2008
Webmiss: Érika Barros
Co-webmaster: Samuel Rodrigues
Design & programação: Dieux Design & Luana Machado
Entre em contato com nosso site